As imagens e o pensamento de Vik Muniz
Por admin • 01/08/07 • Categoria(s): LivrosReflex – Vik Muniz de A a Z é o primeiro livro em português de um dos artistas brasileiros mais conhecidos no exterior. Publicado originalmente em inglês, em 2005, Reflex é uma mistura de memórias e reflexões sobre a arte ao lado de 187 imagens do autor. As obras de Vik Muniz, um híbrido de fotografia e desenho, fazem parte dos acervos dos principais museus internacionais. Vistas de uma certa distância, como requerem os grandes formatos, os quadros assemelham-se a uma imagem fotográfica comum. Numa observação mais próxima, revelam os pormenores dos materiais triviais que compõem os “grãos” da foto (chocolate, poeira, brinquedos, sucata…). O livro é uma oportunidade de se conhecer mais profundamente o seu trabalho, desde as experiências pioneiras do final dos anos 80 até as peças atuais, frutos do envolvimento do artista com a fotografia.
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Em entrevista à Folha de São Paulo, Vik Muniz fala do livro, da crítica e da arte comercial.
FOLHA – “Reflex” foi escrito em inglês e só agora ganha uma versão em português. Como foi o processo?
VIK MUNIZ – Passei metade da minha vida nos EUA, então escrever em inglês é muito natural para mim. Mas acho que estava procurando uma voz para começar o livro, porque queria que ele fosse, ao mesmo tempo, bastante pessoal e universal, que pudesse comunicar coisas sobre fotografia que acumulei nesses anos. A voz pessoal eu já tinha, mas essa voz um pouco fora de mim, mais isolada, apareceu em inglês pela primeira vez. Tentei traduzir com uma tradutora, mas no fim tive que reescrever em português. A versão em português foi um pouco mais difícil, estava meio enferrujado e também pelo fato de ser uma tradução. Escrever é mais fácil que traduzir.
FOLHA – Quais conselhos daria a um jovem artista?
MUNIZ – O livro é uma compilação desses conselhos. Mas acho que a mensagem é: se eu consegui, qualquer um consegue. Tudo é possível. É só não parar.
FOLHA - Há muitas citações no livro. Quais foram os autores que mais o influenciaram?
MUNIZ – O livro tem muitas citações para ter a mesma dinâmica das fotos. Sou muito saudosista, quando alguém fala algo interessante, eu guardo. Adoro [Jorge Luis] Borges, porque lida com o que é real e o que não é. Gosto muito de humor, [Mark] Twain me inspira. Fora disso, adoro clássicos como “Ilha do Tesouro” e “Moby Dick”. Quando era pequeno morava no [bairro paulistano] Jaraguá, minha mãe não me colocava no caratê, então tinha muito tempo para ler.
FOLHA – Qual é sua opinião sobre o mercado de arte hoje?
MUNIZ – Não posso falar melhor. A arte voltou a ser encarada como forma de investimentos. Tem um lado positivo, que permite ao artista viver melhor, não trabalhar só para sobreviver. Mas por outro, tem a “commodificação” da arte, comprar para depois vender. Em toda minha carreira, nunca vi o mercado tão aquecido.
FOLHA – Você acha que há um descompasso entre crítica e público em relação ao seu trabalho?
MUNIZ – O artista faz metade do trabalho e o público faz o resto. Existe muita pretensão e elitismo, e muita gente usa a arte como uma barreira que separa quem sabe e quem não sabe. Acho uma bobagem. É uma espécie de esquema que exclui. Tem gente que não interage com a arte por inibição, por medo de entrar numa galeria. Da mesma forma, há quem não leia um livro de arte pela maneira como é escrito, porque começa a citar Adorno e Baudrillard. Não dá para falar o que é? Tem que usar tanta referência?
FOLHA – Há um preconceito com a arte comercial?
MUNIZ - É lógico. Para mim, a única arte não-comercial é aquela que não vende. Sou um artista comercial, vendo meus trabalhos. Tem essa idéia de que aquilo que não vende é mais valioso, em termos intelectuais. Artistas como Mike Kelley e Paul McCarthy só fazem trabalho com nojeira, com meleca. Não é para vender e acaba vendendo. Um trabalho do Kelley custa US$ 500 mil, mais comercial que isso eu não conheço. Queria ver alguém me chocar fazendo um vaso de flores ou uma marina e ainda assim adicionar alguma coisa.
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